Neill Blomkamp seria um bom roteirista da 2000 AD?

Praticamente novato, sul-africano e responsável por três filmes de ficção-científica lançados nos últimos seis anos (Distrito 9, Elysium e o recente Chappie), o diretor e roteirista Neill Blomkamp possui um perfil interessante para os quadrinhos da 2000 AD. Mas como assim?

Blomkamp iniciou sua carreira aos dezesseis anos como animador, até sua família mudar-se para Vancouver, onde aos dezoito ele ingressou na Vancouver Film School. Após realizar trabalhos como artista de efeitos visuais e dirigir três curtas de ação do universo Halo, o iniciante foi convidado a dirigir um longa metragem do game, até que o financiamento entrou em colapso. Peter Jackson (trilogia “O Senhor dos Anéis”), até então produtor deste filme, resolveu financiar Distrito 9, um longa adaptado de um curta metragem feito por Neill. E isto rendeu grandes frutos.

Distrito 9 foi o primeiro longa metragem dirigido e roteirizado por Neill. Com um orçamento de US$30 milhões, o filme arrecadou mais de US$200 mi. ao redor do mundo, além de ter sido indicado a quatro Oscars. Tudo isto, vale ressaltar mais uma vez, em seu primeiro longa. Mas o que tornou Distrito 9 um sucesso? Provavelmente, a história muito bem contada. Ou os efeitos de qualidade. A discussão sobre o preconceito, feita de maneira fenomenal no decorrer da fita. Enfim, são tantos motivos que o tornam praticamente perfeito, que seria impossível dizer aqui.

Mas uma característica interessante de Distrito 9 é que ele não parece possuir amarras. Lançado quase de maneira independente, este filme não devia nada à ninguém: um orçamento barato, fácil de se pagar; ótimos atores quase desconhecidos. Com tão pouca pressão, é muito mais fácil ousar em uma obra, coisa que não aconteceu muito bem em seus longas seguintes: Elysium e Chappie.

Elysium foi lançado em 2013, e apesar do razoável sucesso nas bilheterias, foi alvo de duras críticas devido a alguns elementos característicos de um filme clichê. Aqui, financiado pela primeira vez por um grande estúdio (com um orçamento de US$100 mi. e um elenco de peso), o diretor parece ter errado a mão em diversos pontos, o que não tornou o filme ruim, na minha opinião. A discussão proposta, como sempre, é muito interessante, e a execução possui algumas falhas. Mas dois anos após Elysium, já em 2015, Chappie estreou nos cinemas.

Com baixo orçamento (apenas US$ 49 milhões), os trailers de Chappie venderam uma obra focada na vida de um robô após adquirir consciência humana. Ainda distribuído pela grande Sony Pictures, e com um elenco recheado de estrelas (como Hugh Jackman, Dev Patel e até mesmo a dupla da banda Die Antwoord), o filme desenvolveu muito bem a trama existencial envolvendo Chappie e seu Criador, o dilema de “a pessoa que você se torna vem da criação“. Mas essa discussão dura pouco mais de 1/3 da fita, onde o restante é caramelizado com uma quantidade absurda de clichês de filmes de ação. Clichês estes protagonizados principalmente por Hugh Jackman. O filme se perdeu, mas seu afeto pelo protagonista (vivido pelo excelente Sharlto Copley), somado ao final ambíguo, passam por cima de alguns problemas, tornando-o razoavelmente bom. Até melhor que Elysium.

“E o que raios tudo isso tem a ver com a 2000 AD?”, você deve estar se perguntando.

A pressão promovida por grandes estúdios em suas produções é sempre muito… grande. O retorno em bilheteria deve ser bom, bem como as críticas devem ser agradáveis. Alguns elementos são adicionados aos blockbusters para que todo tipo de público possa sair satisfeito. Mas aí entra o principal questionamento: as obras de Neill merecem ser agredidas por esse tipo de coisa?

Pensemos longe. Temos como exemplo na 2000 AD a excelente série Área Cinzenta, praticamente baseada em Distrito 9, além de diversas outras histórias de ficção-científica muito bem contadas de maneiras totalmente diferentes. O perfil das obras de Blomkamp dão margem a grandes histórias filosóficas, com designs incríveis e personagens cativantes, que sempre são destruídas com a inserção de besteiras. Mas e se o diretor/roteirista trabalhasse sem amarras, com liberdade criativa total, como foi o caso do seu primeiro longa?

O perfil criativo de Blomkamp não se encaixaria muito melhor em outras mídias? Claro, não podemos dizer se os fatores que reduzem a qualidade de seus filmes foram ou não impostos por produtores, mas tomando este lado mais radical como modelo, não pode acontecer uma Shyamalanização de Blomkamp?

Também não podemos dizer que suas próximas obras serão todas parecidas (como as três últimas, e únicas). Mas e se forem? Seria um potencial perdido, mal aproveitado ou qualquer coisa do tipo? Neill poderia pirar muito mais em outras mídias, ou isso seria uma ilusão, pois ele realmente só tem um modelo a seguir com suas obras? Pensamentos como este ficarão, pelo menos por enquanto, somente em imaginações. Mas o perfil artístico de Blomkamp se encaixaria muito melhor nos quadrinhos da 2000 AD, ou não? Seus trabalhos não seriam melhores desenvolvidos neste caminho?

Só nos resta aguardar sua próxima produção para fortalecer (ou não) este argumento.

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